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sábado, 13 de abril de 2013

Analfabetos em números

Por que a matemática continua sendo o ponto fraco da educação brasileira e as idéias dos especialistas para que nossas crianças se apaixonem por ela


16/02/2009 15:42
Texto Paulo de Camargo
Foto: SXC
Foto: Aluno
Ensino de matemática do Brasil é um dos piores do mundo
Na extensa lista de mazelas da educação brasileira, uma em particular vem tirando o sono dos especialistas: o déficit no aprendizado da matemática. No principal exame internacional de avaliação de estudantes, o Pisa, sigla para Programme for International Student Assessment, o Brasil ficou na lanterna no ensino de matemática, entre 41 países participantes, no teste realizado em 2003, e em 54o lugar, entre 57 países, em 2006. A prova avalia estudantes com 15 anos. Estudos com alunos brasileiros em outras etapas da vida escolar confirmam essa tendência. O último teste aplicado pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostrou que 80% dos alunos de 4a série, 87% dos de 8a série e 87,3% dos de 3a série do ensino médio não atingiram a pontuação mínima adequada. Ou seja, na média, um aluno da 8a série no Brasil não consegue analisar gráficos de colunas, acha difícil lidar com conversão de medidas e não tem a menor idéia de como efetuar cálculos de juros. Pelos padrões internacionais, já deveriam saber tudo isso.


As más notas...
são um sintoma eloqüente, mas ainda não dão a dimensão exata da gravidade da doença. Ignorar os conteúdos básicos da matemática significa estar despreparado para a cidadania. Afinal, lidamos com números ao fazer uma receita de bolo, planejar o orçamento doméstico, decidir se é melhor comprar um eletrodoméstico a prazo ou à vista ou mesmo ao tentar compreender as preferências dos eleitores em uma eleição democrática. Mas o aprendizado da matemática tem um papel ainda maior, conforme explica a pesquisadora Inés María Gómez Chacón, professora titular da Universidade Complutense de Madri: é essencial para a formação das estruturas de pensamento das crianças e dos jovens. 'Matematizar é um exercício de gerar nexos com a realidade', diz ela. Outro especialista de renome, João Pedro da Ponte, catedrático em ciências da educação da Universidade de Lisboa, complementa: 'Contribui certamente para o desenvolvimento de um pensamento rigoroso e para a compreensão do que é e do que não é um argumento válido'. Ou seja: vêm aí gerações inteiras de crianças e jovens que terão maior dificuldade de inserção no mundo globalizado, onde a chave-mestra é a capacidade de aprender continuamente.
 
 
A situação é mais grave...
nas camadas menos favorecidas e no sistema de ensino público, mas está longe de se concentrar nesses estratos sociais. Em 2007, pela terceira vez, o Instituto Paulo Montenegro, ligado ao Ibope, ouviu pessoas de todas as faixas etárias buscando mapear o analfabetismo funcional - num paralelo com o mundo das letras, esse conceito identifica pessoas que sabem ler palavras, mas são incapazes de escrever uma carta. A constatação do trabalho é dramática: pouco menos da metade da população com idade entre 15 e 64 anos, com ensino médio e superior completos, pode ser considerada plenamente alfabetizada em matemática. "Comparando com resultados de anos anteriores, o dado preocupante é que não houve uma melhora significativa", diz Ana Lúcia Lima, diretora executiva do Instituto Paulo Montenegro. "É uma catástrofe."
 
Para compreender...
as origens do problema, é preciso separar as dificuldades específicas do ensino da matemática das deficiências estruturais do ensino brasileiro, como professores desvalorizados, mal formados e sem condições adequadas de trabalho. Há pelo menos duas ordens de questões: as metodológicas, ou seja, aquelas relacionadas a o quê e como ensinar, e outras diretamente ligadas a um preconceito socialmente difundido de que matemática é para "iluminados". Nesse ponto, os Parâmetros Curriculares Nacionais, criados pelo Ministério da Educação há dez anos para oferecer um norte pedagógico aos professores das diferentes regiões do país, são modernos: prevêem a utilização de estratégias como o uso de jogos e uma aproximação amigável com o universo dos números. "Mas há uma grande distância entre a teoria e aquilo que efetivamente chega à sala de aula", diz a pesquisadora Kátia Smole, uma das autoras do PCN na área da matemática. Nas escolas brasileiras, desde o ensino fundamental, os alunos deparam com um conhecimento desconectado da realidade. "Como a matemática é apresentada por meio de uma linguagem sofisticada e nada natural, há obstáculos de decodificação", explica Antonio José Lopes, doutorando pela Universidade Autônoma de Barcelona e autor de livros didáticos. Para Maria Tereza Carneiro Soares, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Paraná, consultora do Pisa, esse é um dos motivos para o insucesso dos alunos brasileiros no Pisa, que cobra um conhecimento matemático cotidiano e indispensável para o mundo do trabalho.
 
 
O que se busca...
hoje é tirar da educação matemática o excesso de formalismo da linguagem - apresentada como se fosse uma sucessão de fórmulas, regras e enunciados -, de maneira a aproximá-la da vida real, passando a ter mais sentido para o aluno. Pode ser muito prazeroso descobrir quanto de matemática existe na confecção de uma pipa ou participar de jogos nos quais a compreensão das regras passa pelos princípios matemáticos fundamentais. É essa distância entre modos de ensinar a matemática que separa, por exemplo, o jovem Mateus Henrique Pedroso Cárdia, 11 anos, de sua mãe, a professora de educação infantil Sílvia Helena, que não consegue ajudá-lo nas questões envolvendo números. "No meu tempo de escola, era uma matéria difícil, teórica", diz ela. No colégio de Mateus, os professores sempre traçaram paralelos entre a vida concreta e o conhecimento teórico. "O resultado é que eu sempre tive dificuldades, mas o Mateus adora; ele me apresenta uma dúvida e logo encontra, pelos próprios caminhos, a solução."
 
Uma ciência para poucos
Essa visão sobre a matemática está por toda parte. A pesquisadora Inés Gómez Chacón, autora do livro Matemática Emocional (Artmed), analisou o grande impacto das emoções no aprendizado dos números. Para ela, boa parte da dificuldade se explica pelo grau de ansiedade e pela auto-estima dos estudantes. Quanto mais autoconfiantes, melhor o desempenho com números; já a baixa auto-estima leva a um medo excessivo de cometer faltas, a uma diminuição no grau de atenção, na memorização e até mesmo na eficácia do raciocínio. Com base nisso, propõe novas condutas em sala de aula, mostrando ao aluno que suas idéias são importantes e que a matemática não é um mundo de certezas, mas também um conhecimento experimental. O estudo mostra ainda a importância do papel dos pais no fortalecimento da auto-estima da criança.
 
 
Aprender os números...
não é uma capacidade inata, lembra a pesquisadora Kátia Smole. O aluno precisa aprender que existem muitos caminhos, e não apenas aquele que o professor ensina. "Por outro lado, há alunos talentosos e fascinados pelos desafios da matemática, mas muitas vezes os professores nem atentam para isso, pois estão centrados nos procedimentos e técnicas", afirma ela. Não pode haver trajetória melhor do que a do pintor Antonio Peticov. O artista repetiu cinco vezes de ano, em grande parte por suas dificuldades com o aprendizado dos números. Hoje, tornou-se famoso em muitos países porque sua arte incorpora conceitos matemáticos, como a Regra de Ouro. Baseada em uma seqüência algébrica conhecida como Número de Fibonacci e muito utilizada no Renascimento, estabelece proporções geométricas de modo, por exemplo, a guiar a atenção do espectador para certa seção da obra. Por esse talento, Peticov foi convidado a integrar a Lewis Carroll Society, que reúne especialistas em matemática das mais diversas áreas. "Há matemática em tudo, na arte e na vida", diz ele.
 
Fonte: EDUCAR PARA CRESCER
 
 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Entrevista com Vitor Haase: discalculia

A revista Carta Fundamental é muito interessante, pois aborda vários assuntos ligados à Educação, principalmente sobre políticas públicas.

Entrevista por TORY OLIVEIRA que aborda um assunto que já comentei : DISCALCULIA.


Eles não sabem calcular


O pesquisador da UFMG Vitor Haase organiza primeira grande pesquisa sobre discalculia no Brasil. Foto: Washington Alves
Diante de um estádio de futebol, a maioria de nós consegue distinguir se há mais torcedores do Corinthians ou do Palmeiras nas arquibancadas. Para um discalcúlico, a tarefa é quase impossível. O termo, pouco usual, define pessoas que têm discalculia, transtorno crônico de aprendizagem da Matemática que compromete a capacidade de efetuar cálculos básicos, estimar quantidades e entender -sequências -numéricas. Apesar de atingir 6% da população, o distúrbio ainda é pouco conhecido, principalmente se comparado à dislexia. Coordenador do Laboratório de Neuropsicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, Vitor Haase é um dos organizadores da primeira grande pesquisa sobre a discalculia no Brasil. Realizado com 1,8 mil estudantes em Belo Horizonte, o estudo procura estimar a incidência da discalculia na população brasileira e descobrir mecanismos neurológicos e genéticos que expliquem o transtorno. Nesta entrevista, o neurologista e doutor em psicologia médica explica mais sobre a discalculia e sobre outros transtornos de -aprendizagem da Matemática.
Carta Fundamental: Como surgiu o interesse em estudar a discalculia?
Vitor Haase: Os motivos são vários. É um assunto pouco estudado, mas com implicações sociais importantes. Estudos mostram que crianças com dificuldade crônica de aprendizagem em Matemática sofrem consequências do ponto de vista psicossocial, como, por exemplo, aumento de transtornos de comportamento, da ansiedade e da depressão. Além disso, do ponto de vista da pesquisa, apareceram modelos de processamento de informação muito interessantes, que permitem identificar mecanismos neuropsicológicos específicos dessa dificuldade.
CF: O que é discalculia? 
VH: Também chamada de transtorno de aprendizagem da Matemática, é uma condição de dificuldade de aprendizagem crônica, persistente. Essa dificuldade não está relacionada com inteligência baixa, com experiência educacional inadequada, dificuldades emocionais primárias ou carência sociocultural. Ela é uma dificuldade intrínseca, não é relacionada com nenhum fator externo.
CF: É comum a discalculia ser confundida com dificuldade em Matemática? 
VH: A discalculia precisa ser diferenciada da dificuldade de aprendizagem, que engloba um conjunto maior de indivíduos com rendimentos mais baixo, mas que não têm essas características da gravidade e da persistência no tempo. A discalculia é uma dificuldade bastante intensa.

CF: Se ela é uma dificuldade intrínseca, é causada por um distúrbio neurológico?
VH: É um problema de origem genética e uma dificuldade inerente ao indivíduo. As causas estão relacionadas com um mecanismo genético multifatorial, interagindo com fatores ambientais que desencadeiam o quadro. A discalculia é um quadro grave, que causa dificuldades nos aspectos mais básicos, como contar, conhecer tabuada, resolver -problemas aritméticos simples, noção de quantidade da grandeza das coisas. É diferente de problemas como a ansiedade matemática.
CF: O que é isso?
VH: É uma forma de fobia de testes matemáticos. É muito mais frequente, chega a atingir 20% da população. A discalculia tem uma frequência de 5% a 6%. Interessante é que a ansiedade matemática tem uma sobreposição relativamente pequena com a discalculia. O número de indivíduos com discalculia que têm ansiedade matemática não é muito grande. O contrário também: a maioria dos indivíduos com ansiedade matemática não possui um déficit grave como na discalculia. O que acontece é que as pessoas têm medo, já que a matemática é uma área complexa.

CF: Com quantos anos a discalculia costuma se manifestar?

VH: Na idade da pré-escola. A professora geralmente já percebe que a criança tem dificuldade de contar e identificar os números.

CF: A discalculia acontece por causa de um distúrbio genético que afeta uma parte do cérebro responsável pela Matemática?

VH: Isso é uma das coisas interessantes na questão da aritmética: não existe um mecanismo só. Cada região cerebral é responsável por algum tipo de função importante para a Matemática. Os fatores que interferem na aprendizagem da Matemática são três. Um é o senso numérico, acuidade que um indivíduo tem de estimar o tamanho dos conjuntos sem precisar contar.  Por exemplo, policiais olham para um estádio cheio de gente e dizem: são 60 mil pessoas. É uma habilidade de fazer estimativas com base no “olhômetro”, sem precisar contar. O indivíduo com discalculia possui dificuldade nesse senso numérico. Outras habilidades importantes são as de linguagem, algo comprometido na dislexia. Muitas crianças com dislexia também têm dificuldades com a Matemática, justamente por não conseguir lidar bem com estruturas sonoras das palavras. Então, são três os fatores cognitivos mais importantes para a Matemática: o senso numérico, as habilidades fonológicas e o terceiro fator, que é a memória de trabalho. A memória de trabalho é extremamente importante para o cálculo mental. Quando realizamos uma operação, precisamos manter os produtos e os resultados intermediários na mente para fazer essas operações. Apenas 30% das crianças com discalculia têm uma discalculia pura. Dois terços delas têm discalculia associada – com a dislexia, com dificuldades na leitura, com TDH, ou com dificuldades de concentração. Os meninos com discalculia pura são aqueles com a forma mais grave da doença. São justamente essas crianças que têm dificuldade com a noção de grandeza e de quantidade. É uma coisa muito mais incapacitante, porque na vida prática é preciso estimar o tempo que você vai levar para tomar banho, para ir de um lugar a outro, a quantidade de comida usada para fazer uma refeição…

CF: Quando a discalculia começou a ser estudada? 

VH: A definição é da década de 1970 e os estudos começaram em 1980, mas somente se intensificaram a partir de 1990, quando surgiram modelos de processamento de informação que permitiram aos pesquisadores identificar esses componentes. Hoje é uma área que está crescendo muito.
CF: O senhor está coordenando o primeiro levantamento no Brasil sobre a prevalência da discalculia no País. Quais são os principais objetivos da pesquisa?
VH: Estamos coletando uma amostra representativa da discalculia na população de Belo Horizonte, em 16 escolas. O processo de avaliação é feito em duas etapas. Na primeira, é feita uma triagem, com teste de inteligência e teste de desempenho em aritmética. Já triamos pelo menos 1,8 mil crianças. Dessas, selecionamos aquelas com desempenho abaixo de 25%. Então, convidamos as crianças daquele grupo a participar da segunda fase e também convidamos outro grupo de crianças com desempenho acima do perfil de 25%, para servir de controle. Daí é feita uma entrevista e uma avaliação individual de duas ou três sessões. Depois, pegamos o material biológico – recolhemos saliva – e fazemos extração de DNA para as análises genéticas. Por meio dessa avaliação, procuramos ver os mecanismos neuropsicológicos, quais são os mecanismos cognitivos implicados na discalculia e também fazemos a genotipagem. A genotipagem é feita em dois locus. Um dos locus é o da Síndrome de Turner e o outro é o da Síndrome Velocardifacial. As duas síndromes são as mais comuns que causam dificuldade de aprendizagem da Matemática sindrômica. Também a gente faz a genotipagem de uma enzima importante para o metabolismo da dopamina, que está relacionada com várias funções, principalmente com a memória de trabalho. Agora terminamos a genotipagem de 268 crianças e começamos a fazer essas análises. O objetivo é fazer um cruzamento entre os polimorfismos genéticos e o perfil cognitivo dessas crianças.
CF: Quando o professor desconfia que o aluno possui discalculia, como ele deve proceder?
VH: Se o professor acha que a criança tem uma dificuldade que é mais grave, deve encaminhá-la para uma avaliação neuropsicológica. Uma coisa importante é – quando há uma criança com desempenho considerado insatisfatório – constatar se ela tem uma dificuldade de aprendizagem mesmo ou se o problema é de “ensinagem”. Ou seja, se o currículo- ou mesmo a atitude do professor não está sendo a mais favorável, no sentido de promover a aprendizagem daquela criança.

CF: Existe tratamento para a discalculia?

VH: A questão do tratamento é o das intervenções psicopedagógicas. Existe um componente motivacional importante que a gente tem de trabalhar com a família e com a professora. Eles geralmente têm atitudes negativas com a criança. Acham que ela é lerda, burra, malcomportada e tem pouca expectativa. Com a criança também é preciso trabalhar o aspecto motivacional, porque a dificuldade crônica de aprendizagem é extremamente desmotivante. Uma das estratégias usadas é a aprendizagem sem erro, que consiste em programar o currículo de maneira tal que a criança consiga dar conta de resolver o problema com pequeno esforço. Nesse aspecto motivacional, a gente trabalha também com técnicas de autoinstrução – ensinar o menino a ter uma atitude mais reflexiva, de monitorar seu comportamento ao resolver problemas, de checar, de ver se a solução atingida foi a correta ou não.

CF: O problema da discalculia é menos comum do que a dislexia ou ele só é menos conhecido? 

VH: A frequência é mais ou menos a mesma da dislexia, em torno de 5% a 6% da população. A questão é que as pessoas, socialmente, acham que a Matemática é difícil e que é natural ter dificuldade.

CF: Ao contrário do que acontece com a leitura e a escrita…

VH: Outro dia eu estava conversando com uma professora e ela falou o seguinte: às vezes a criança está tendo dificuldade nas duas coisas. Aí a professora começa a ficar ansiosa, porque a criança não está acompanhando o currículo, e resolve trabalhar com uma coisa só. Geralmente, ela acaba privilegiando a leitura, porque as famílias se preocupam mais com que as crianças terminem o primeiro ano sabendo ler do que sabendo fazer contas…